terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Ponto de vista e ponto de interesse na fotografia

Dê mais poder narrativo a suas imagens com um ponto de interesse secundário
Etiquetas: composição, espaço, profissionalizando, técnica
Em vários dos artigos que temos publicamos estive falando da necessidade de definir perfeitamente qual é o ponto de interesse de cada uma de nossas fotografias. Disse, até, que o tratamento compositivo de nossas imagens deve contribuir para significar esse ponto de interesse, reforçando a ideia que queremos transmitir e deixando o resto como simples ambientação. O que eu não disse é que só possa existir apenas um único ponto de interesse.

O interesse do ponto de interesse
É assim: o que importa é o ponto! Não é mania minha, mas uma constante na fotografia. Definir um ponto de interesse é consubstancial ao fato de atirar fotografias, pois a fotografia é sempre fotografia de «algo». Eis o ponto de interesse. Quer uma manifestação quer uma garrafa com um tratamento de contraluz: sempre a fotografia apresenta algum elemento com maior carga narrativa, descritiva ou conotativa. Eis o ponto de interesse.
O ponto de interesse secundário cria uma relação narrativa que dá maior interesse à imagem
Uma questão à margem é o modo como significar esse elemento, esse ponto de interesse. Para isso há técnicas variadas, diferentes fórmulas. Cada fotógrafo usa uma ou várias, e até já temos apresentado aqui alguma.
Mas numa cena qualquer, o que impede haver mais de um ponto de interesse? A resposta é simples: absolutamente nada.
O ponto de interesse secundário
Lembremos para o que servia o ponto de interesse. Seu objetivo era pegar o olhar dos espectadores. As fotografias com um ponto de interesse corretamente identificado resultam mais impactantes, aparecem destacadas à frente dos milhões de imagens que cada dia produzimos. Daí a importância de aprender as técnicas que permitem defini-lo sem lugar a dúvidas.
O que acontece quando em lugar de apenas um ponto de interesse há mais? Pois —assumindo que eles estejam corretamente significados— que o olhar de quem vê a imagem passa de um para o outro. Isto é: viaja pela imagem e estabelece, mesmo sem o pretender, uma narração. O ponto de interesse secundário cria uma história e torna nossas imagens mais engajantes.
Mas, para que isso aconteça é novamente fundamental o modo como o ponto secundário sobressai do ambiente. Dito em breve: ele tem que destacar do fundo —quer espaço em off quer imagem repleta de elementos— mas ao mesmo tempo se manter subordinado à presença marcante do ponto de interesse principal. É assim que se estabelece uma relação primário/secundário e, daí, a história.
Criando histórias: a narração fotográfica
Até, com essa técnica, algumas histórias são tão poderosas que podem levar a limites insuspeitos. Vocês lembram aquela fotografia da criança e do abutre, de Kevin Carter?

A fotografia do Kevin Carter (Prêmio Pulitzer)
Pois, a criança sobreviveu à fome e à guerra do Sudão; Kevin Carter se suicidou. A pressão social criada à volta da foto —graças à imensa hipocrisia de nossas sociedades— foi tão incontornável e destrutiva que terminou matando o fotógrafo.
Não há qualquer necessidade de atingir extremos assim perigosos. Deixo à margem a triste história de Kevin Carter (Jornal de Notícias), pois ela só pretende mostrar um caso de história criada por meio da relação de dois pontos de interesse fotográfico, e, de resto, cada quem pode tirar suas conclusões.
O certo é que, mais ou menos lutuosas, todas as histórias que formos criar à volta de uma só imagem com essa técnica do ponto de interesse secundário têm muito a oferecer, notadamente em alguns gêneros como o fotojornalismo, mas não só. É só questão de sabermos aproveitar e sermos criativos.
Mas, no fim das contas, não é sempre isso a fotografia?