segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Não seja percebido

Quem não se perguntou‚ diante de um retrato observado‚ onde estava o fotógrafo? Na minha vivência como professor de fotografia venho observando e percebendo que uma das maiores dificuldades das pessoas em fotografar outras‚ é a de se manter fisicamente visível aos olhos do outro ou do sujeito fotografado. Um dia‚ Cartier Bresson (um dos mais importante fotógrafo da atualidade) disse que fotografar era unir a mente ao olho e ao coração. Para mim‚ é exatamente como criar uma ponte imaginária até o indivíduo fotografado‚ onde podemos‚ digamos que‚ hipnotizá-los; onde poderemos nos tornar invisível; vê as pessoas com os olhos da alma; ouvir seus movimentos.

Geralmente‚ quanto mais próximo você estiver e olhar mais intensamente para dentro do olho do fotografado‚ mais dificuldades encontrará para obter uma imagem natural. Bastante diferente de quando o fotógrafo se aproxima fisicamente do modelo já com a câmara em punho‚ impedido assim que os olhares se cruzem e possam entrar em contato direto com as sensações e medo do outro.
A câmara fotográfica fisicamente falando‚ não tem a capacidade de esconder o fotógrafo do olhar de sua presa. Para o fotógrafo o visor da câmara não funciona como uma realidade‚ mas como uma tela onde as imagens encenam um movimento vivo. Através do visor é possível desnudar a pessoa‚ sem que ela sinta e possa interferir na disposição do fotógrafo.
Permanecer invisível ou não existir‚ é um dos níveis mais transcendentes da fotografia. Ter a capacidade de se manter inatingível enquanto fotografa‚ não necessariamente de forma física‚ é uma habilidade bastante trabalhosa de se conseguir. O fotógrafo precisa ter o domínio das suas próprias percepções‚ pois seguramente as sensações que cada um trás de si próprio vai interferir diretamente na possibilidade do que chamamos de ato fotográfico.
Porém‚ não podemos deixar que o modelo prejudique nosso momento‚ na nossa respiração. Temos de impor nosso poder como fotógrafo‚ executar nossa tarefa e se necessário‚ não manter contato com o fotografado e passar despercebido. Não estou aqui sugerindo que sempre devemos agir como batedores de carteiras‚ mas que o pré-contato quando coloca o fotografado numa posição de retaguarda‚ trás um incomodo bastante relevante‚ é inconteste. Esqueça de quem você é‚ de onde você veio ou vai‚ do que gosta ou detesta‚ e até se possível de qual é à razão (no sentido de racionalidade) por você estar fotografando. É preciso perder a vergonha. Devemos fotografar talvez da forma como quando estamos tentando seduzir o parceiro‚ é um exercício de sedução‚ onde vence quem se manter mais impostado. É preciso aplicar as regras desconhecidas‚ mas usadas por todos‚ as regras do olhar. É preciso não existir‚ somente agir.