segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Fotografia digital e imagem digital

Uma das grandes preocupações que surgiram com a foto digital foi a ideia de que imagens poderiam ser manipuladas‚ com o intuito de criar uma realidade que não existia no momento em que a imagem foi captada. Obviamente‚ que esse recurso independe da foto ser originalmente digital‚ ou ser uma imagem impressa‚ e posteriormente digitalizada e editada em software de manipulação de imagens. Na minha opinião‚ o nó está justamente em a fotografia digital ter encurtado e facilitado o processo. Ficou muito simples tirar uma quantidade enorme de fotografias‚ e em seguida descarregá-las em um computador‚ selecionar a melhor‚ e fazer algumas alterações quando necessário. Estive recentemente em um curso de fotografia sub digital com um respeitado fotógrafo brasileiro. No decorrer do curso o instrutor apresentou uma imagem de um cardume de peixes. Uma imagem muito bonita que continha um único defeito que incomodava aos olhos de quem via. Por uma infeliz coincidência‚ no momento da foto um buraco se abriu no meio do cardume por um movimento natural dos peixes. Mas o que há de errado nisso? Não haveria nada de errado se a imagem final não tivesse sido apresentada em uma publicação com um peixe preenchendo o local do buraco. O complicado é que‚ além da foto ter sido publicada‚ ela foi apresentada como sendo uma simples modificação‚ ou melhor‚ correção como um ajuste de níveis‚ contraste ou saturação. ã exatamente aí que reside a questão. Nesse caso houve uma alteração da realidade‚ ou seja‚ independente de ser algo contundente ou não‚ aquilo que aparece na foto nunca existiu e é aí que eu questiono‚ será que isto é uma foto digital ou podemos chamá-la de uma imagem digital? A definição de fotografia é exatamente‚ escrita pela luz. Nesse caso duas partes distintas foram escritas pela luz e uma terceira foi ’escrita’ pela habilidade de alguém operando um software. Todos que já utilizaram uma máquina digital e operaram um software de edição de imagens puderam perceber que uma foto ruim tem que ser muito trabalhada para tornar-se algo aceitável e em alguns casos nada pode ser feito. Em contrapartida‚ uma boa foto não precisa de nenhuma alteração ou‚ no máximo‚ alguns ajustes simples. Talvez a preocupação dos mais conservadores seja muito pertinente no que diz respeito a‚ com o tempo‚ bons fotógrafos serem confundidos com bons operadores de programas gráficos. Nenhum dos dois deve ser desvalorizado‚ mas existe uma diferença enorme entre um e outro; o verdadeiro fotógrafo busca a sua imagem na essência‚ no momento em que ela está acontecendo‚ no momento em que ele enxerga que a luz poderá escrever em seu filme ou CCD uma imagem que só ele percebeu que poderia acontecer naquele instante. Momento este que só estavam presentes ele‚ sua máquina e o mundo a sua volta. Confesso que essa questão me chamou a atenção quando me percebi perdendo mais do que poucos minutos na frente do computador mexendo em algumas de minhas fotos. Parei para pensar e cheguei a conclusão de que se invisto mais tempo no trabalho de pós-produção da minha foto do que o necessário para fazer alguns ajustes simples como corte‚ brilho e contraste‚ esse é um sinal de que aquela imagem não é tão boa quanto deveria. A partir de agora resolvi fazer do meu trabalho um divertido jogo entre eu e o computador. O meu objetivo passou a ser conseguir o maior número de imagens boas na essência e trabalhar o mínimo com o nosso amigo binário. Seria muito interessante se vários fotógrafos fizessem o mesmo durante essa transição da fotografia convencional para a digital. Talvez dessa forma fosse possível criarmos uma consciência para os rumos que a fotografia digital irá tomar. Transfira toda a sua competência e criatividade para os controles de sua câmera e continue fazendo dela sua principal companheira de momentos incríveis.