segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Fotografar com filme

Foi com esse pensamento em mente que me matriculei no meu primeiro curso de fotografia. Sempre fui uma entusiasta do assunto, mas até pouco tempo era uma completa analfabeta em qualquer coisa que fosse além da configuração automática da minha cybershot. O jeito foi mesmo estudar!
O primeiro módulo do curso foi minha primeira surpresa: fotografia com filme. Meu impulso inicial foi achar que embarcaria numa viagem ao túnel do tempo da fotografia, mas já na primeira aula percebi que o buraco era bem mais embaixo e que usar máquinas com filme seria um mega desafio para viciada em modernidades aqui. Foi aí que aprendi minha primeira lição: nada melhor do que máquinas antigas para nos ensinar sobre medição de luz, abertura e velocidade. Seria um mal necessário se eu quisesse aprender a fotografar decentemente.

Depois de uma aula básica sobre como funciona todo o mecanismo da máquina e sobre conceitos elementares, saí da escola munida de uma Nikon da década de 70, um filme colorido ISO 100 de 24 poses e pouca coragem para fotografar. A primeira aula prática foi no Parque da Cidade. 12 poses que nem com a orientação do professor deixaram de ser sofridas e 12 temidas para fotografar em casa. Sozinha. Por conta própria. Confiando em mim mesma, na velha máquina e na agulha do fotômetro. Para quem, como eu, é refém da foto digital, fotografar com filme pode ser um martírio. O foco é um desafio quase sobrehumano, o fotômetro dá insegurança e a ansiedade de não poder olhar a foto no visor depois do clique te consome vivo. É muita coisa para pensar: luz, composição, enquadramento, velocidade, abertura. E você só pode ver o resultado dias depois. No momento do clique é você, a máquina e mais ninguém. Eis então minha segunda lição de fotografia: confiar em mim mesma! E, olha, não é que pode dar certo?

Bom, continuando a falar nos benditos filmes… Quando eu achava que meu nível de ansiedade não tinha mais como aumentar, meu professor vem com o que eu considero o maior desafio para um fotógrafo: fotografia com filme em preto e branco. Em um primeiro instante, o que eu estou falando pode parecer exagero, mas trabalhar com filme em preto e branco não é brincadeira. Exige muito mais do talento do fotógrafo! É preciso pensar em luz, sombra e contraste com muito mais cautela e ter sempre em mente que nem toda foto é possível com esse tipo de filme. Assim, você precisa procurar muito mais inspiração, pensar bem mais, ter ainda mais cuidado com a fotometria. Conclusão: além de toda atenção que a fotografia com filme exige e de não poder saber na hora se a foto ficou boa ou não, ainda tinha o estresse do filme em preto e branco. Quase chorei!

Sem ter muita opção, passei uma semana inteira rezando para parar de chover  (para completar meu desespero um dia nublado atrás do outro!) e procurando cenários ideias para os meus cliques. Controlar a ansiedade foi difícil, mas por incrível que pareça, no meio dessa desafio todo, tirei uma das minhas fotos preferidas.
Ao fim de uns dois meses de aulas, o grande aprendizado que levo comigo com relação a foto com filme é que todo fotógrafo deveria começar assim. O filme te faz ser mais cauteloso, exige que você pense e repense a sua foto antes do clique. Você não pode tirar 1000 fotos e depois selecionar as melhores. Tem que ser todas (ou quase todas) boas e pronto. Simples assim! Tem que fazer a fotometria direitinho e, o mais importante, tem que confiar em si mesmo. Hoje, depois de me tornar melhor amiga da minha Nikon D7000, corro dos filmes, mas confesso que eles me fizeram ser uma fotógrafa melhor. De vez em quando eu percebo que a ansiedade de ver a foto pronta é tão grande que me vejo dependente do visor da máquina e com uma vontade alucinante de deletar as fotos ruins sem nem parar para estudá-las. É aí que volto às raízes! Desligo meu visor e só olho as fotos quando passo para o computador porque assim me forço a ser mais cautelosa na hora de fotografar e aprendo com meus erros depois.

O bom fotógrafo, para mim, é o que tira as melhores fotos só com os recursos que as mesmas máquinas de filme sempre nos ofereceram. Ele não pode se permitir tirar uma foto ruim ou medíocre já  que depois pode melhorá-la em programas de edição. Ele tem que pensar em cada detalhe da sua foto e só então se render à vontade de clicar. Então, caro leitor, deixo aqui um desafio para você: use filmes! Teste o limite da sua ansiedade, sinta o friozinho na barriga de não saber se a foto ficou boa ou não, revele o filme e delicie-se com a angústia toda. Você nunca mais vai fotografar com máquina digital da mesma maneira!