quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O valor agregado da informação

Fotografar a natureza com conhecimento solido sobre a fauna e a flora só valoriza as imagens de quem faz
Algumas fotografias adquirem valor e importância quase exclusivamente pelo assunto que apresentam, ou seja, pela sua informação. O livro Beat Memories, de autoria de Allen Gingsberg – poetaq norte – americano da geração beat – com autorretratos e  instantâneos de seus amigos, mostra fotos que deixam muito a desejar, tanto do ponto de vista artístico como técnico. Gingsberg não era fotógrafo, usou equipamento precário e não tinha nenhuma pretensão artística. Apenas registrou encontros com amigos. Mas os oitentas retratos que compõem o livro “formam um dos registros mais atrativos e reveladores da Geração Beat, segundo o diretor da National Gallery Art.

Quando o poeta fotografou seus contemporâneos, gente como Bob Dylan e ows escritores Jack Kerouac, William Burroughs e Paul Bowles, eles ainda não eram famosos. Com o tempo ganharam importância artística e popularidade.

Há mais de Allen Gingsberg 20 anos, tem se dedicado à fotografia, especialmente ao tema natureza: as imagens de animais e paisagens que ele faz ilustram principalmente livros didáticos, voltados à educação e conscientização ambiental.
Formado em arquitetura e Gingsberg é autodidata em fotografia e biologia. “Conheço mais de biologia que de arquitetura”, diz. Ele já fez trabalhos nos principais biomas brasileiros. Mas a Mata Atlântica é seu ambiente preferido. “Mesmo tendo sido devastada, a Mata Atlântica sempre me surpreende. É uma biodiversidade impressionante, pois há uma variação de altitude e temperatura que atrai animais de variadas espécies.” Na semana passada exibiu suas fotos no seminário Novas Ideias para o Futuro Planeta Sustentável.

Saber usar a luz é uma regra essencial quando se fotografa a natureza. A norma de evitar bater as fotos contra a luz nem sempre se aplica nesse caso. Flores, por exemplo, podem produzir resultados diferentes quando estão contra e a favor da luz, exibindo gradientes de cor e transparência inusitados sob o ângulo apropriado. Se a câmera estiver no modo totalmente automático, é possível que o objeto em primeiro plano fique escuro quando fotografado contra a luz. Isso pode ser interessante se o objetivo for registrar só a silhueta. Se, no entanto, você quiser clareá-lo, a maneira mais simples é acionar o flash. Experimente, também, fazer ajustes manuais na exposição para variar a luminosidade.

Imagine ainda ter como local de trabalho um cenário onde vivem centenas de espécies de mamíferos, répteis e anfíbios, mais de 1.800 espécies de aves diferentes, sem falar nas incontáveis espécies de insetos e plantas, muitas ainda nem descritas pela ciência. Pois este é o Brasil natural que se apresenta diante do fotógrafo de vida selvagem, o que garante trabalho para toda uma vida e nem mesmo assim seria possível fotografar tudo.

Na maioria dos casos, a luz da manhã ou do fim da tarde é melhor para conseguir boas fotos de natureza, afirma Gingsberg. Fotógrafo de natureza precisa acordar cedo, quando a luz é mais suave. Com o sol a pino, as sombras são muito duras, não são bonitas, diz. É claro que toda a regra tem sua exceção e sob o sol forte é possível conseguir boas fotos de contraste, com brancos e pretos. Na contraluz, é possível revelar o translúcido ou os contornos de um objeto.

Para fotografar a natureza em geral, mas especialmente para as aves, o melhor horário é o das primeiras horas da manhã. Portanto quem desejar observar ou fotografar nossa avifauna, terá que estar em campo o mais cedo possível. O ideal é que assim que o sol aponte no horizonte, já estejamos a postos para nossas atividades. Este é o horário que a grande maioria das aves estão mais ativas, procurando alimento, cantando, etc. Ele se estende do amanhecer até umas 09:00h ou 10:00h da manhã. Depois deste horário, diminuem muito suas atividades ficando imóveis e silenciosas durante boa parte da tarde (quando geralmente o sol esta mais quente) voltando novamente aos afazeres antes do entardecer, o que traz novas oportunidades para o fotógrafo normalmente das 16:00h em diante. Além disso, as primeiras horas da manhã e as últimas horas antes do anoitecer são as que apresentam melhor luz, não só para a fotografia da fauna como também para as fotos de paisagem, como as fotos do pôr-do-sol, por exemplo.

Uma dica para quem deseja fotografar os animais é a de evitar colocar como fundo em uma foto, aquele céu cinzento quando o dia estiver fechado e chuvoso. Imagine um Bentevi (Pitangus sulphuratus) pousado na ponta de um galho seco ou na fiação elétrica de uma rua. Você chega bem embaixo e mira a câmera para cima colocando o céu escuro e carregado que se apresenta neste dia nublado como fundo do Bentevi. O resultado vai ser desastroso (a não ser que se utilize um flash bem potente), pois na foto o pássaro aparecerá como uma mancha escura, mostrando apenas sua silhueta e não revelando nenhuma de suas cores, como se pretendia.  Para tentar resolver este problema o fotógrafo deve se movimentar de modo que de outro local ele consiga visualizar o pássaro com outro fundo que não seja o céu nublado. As copas das árvores ou um penhasco podem servir como fundo, por exemplo. Nestes casos o fotógrafo pode também se deslocar para o ponto mais elevado que se apresente no ambiente a seu redor, o que permitirá que ele mire sua câmera para baixo evitando também este problema. Mas caso todas estas alternativas não sejam possíveis de se por em prática no local, o melhor a fazer seria focar seu objetivo nos animais e pássaros que se apresentem o mais próximo do solo ou do sub-bosque e deixar os do alto das copas para um dia em que o tempo ajudar.
A vida selvagem é surpreendente e intrigante. A fotografia de natureza deve, então, proporcionar a quem observa a grandeza de expressões do mundo animal, trazendo a emoção do momento fotografado a quem não pôde presenteá-lo. “Quanto maior for o esplendor do que o fotógrafo vir, mais habilidade será necessária para transmitir ao observador uma fração que seja dessa experiência.”

Para o fotógrafo amador, recomenda se levar uma lente zoom, que faz o papel de várias. Caso prefira fazer fotos com qualidade máxima, leve três lentes: a grande angular (de 24 ou 28 mm), a macro (80 a 100 mm) e a teleobjetiva (400 mm).
Um toque que pode fazer a diferença na hora de fotografar animais: procure sempre focalizar nos olhos. Se a imagem capturada apresentar algum movimento no bico de uma ave ou no focinho de um touro, por exemplo, isso não vai prejudicar muito o resultado. Mas, se o olho do animal estiver desfocado, a foto estará perdida. Observe que o foco no olho também é a regra no caso de retratos de pessoas.
A lente macro também é utilizada para fotografar minúsculos insetos, como abelhas, besouros e aranhas, e pequenos animais, como sapos e rãs. Ela permite uma aproximação do assunto, a uma distância mínima de foco de centímetros. Em geral, essa lente é usada junto com o flash para congelar o movimento e garantir o foco da imagem. Na verdade, o ideal é empregar dois flashes, um em cada lado, para eliminar as sombras — já que a captura da imagem tem de ser feita bem de perto. Para esse tipo de foto, uma macro de 100 mm ou mais é preferível. Se for usada uma lente mais curta, será necessário aproximar muito a câmera do objeto.
É fundamental obter informações sobre o assunto fotografado. No caso dos animais, por exemplo, é preciso saber o comportamento deles, quais são venenosos, onde eles vivem, para obter boas imagens. Além disso, o fotógrafo repassa informação sobre o assunto que fotografa.
Faltam no Brasil livros sobre natureza. Não apenas guias de identificação de plantas e animais brasileiros – que só recentemente têm sido editados -, mas livros de texto sobre vivencias, beleza e riqueza das experiência possíveis de se desfrutar no contato com a “natureza”. Falta  uma verdadeira cultura naturalista e até mesmo um termo com wilderness para descrever os espaços naturais encontrados em parques nacionais e em áreas não urbanas ou pouco alteradas pelo homem. Assim, por carência de conhecimento, falta também conteúdo na recente e incipiente fotografia de natureza. Falta conhecimento de historia natural e de biologia. Ainda somos incultos, e temos dificuldades para adquirir equipamentos e exercer a atividade.
Quando for se embrenhar pela mata para fotografar, vá acompanhado – de preferência com outra pessoa que goste de fotografar ou que tenha paciência para acompanhar o seu trabalho. “A tendência do fotógrafo é proteger a máquina, por isso quem escorrega costuma levantar os braços e se machucar mais”,. Se acontecer algum acidente, o acompanhante poderá socorrê-lo ou buscar ajuda. Também é preciso tomar cuidado com os animais peçonhentos. “Esteja sempre atento a onde apoia a mão e, quando for andar muito no mato, use uma perneira para proteger-se contra picadas de cobra.” É recomendável também levar celular, GPS ou rádio nas saídas a campo.

Fotografar é mais que possuir equipamentos, técnica e narrativa. Uma boa fotografia é resultado, também, de uma boa oportunidade. Não é necessário ir à Amazônia ou à África para capturar uma boa imagem. É claro que alguns animais são impossíveis em certas regiões, mas fotografar os simples também pode ser desafiador. E sempre existe a possibilidade do final de semana na fazenda dos avós e de um passeio rápido ao zoológico. No último caso, insista em saber como os animais são tratados. Caso observe qualquer tipo de maltrato, por menor que seja, abandone o estabelecimento. Não dê credibilidade a locais onde os animais possam sofrer qualquer prejuízo. A segurança e o bem estar deles devem estar acima de qualquer ego e gana por conseguir uma boa fotografia; a menos, claro, que o objetivo da imagem seja justamente denunciar os maus tratos.  
Nas fotos de flores, as lentes mais usadas são a grande-angular e a objetiva com função macro. Se você for fotografar um campo florido, por exemplo, deve utilizar uma lente grande-angular entre 20 e 28 mm, que permite enquadrar uma área maior.
Para fotografar grandes aves e mamíferos em geral, uma teleobjetiva de 300mm (6x de aumento) já é o suficiente.

 Para fotografar aves menores, aconselho uma teleobjetiva que esteja acima dos 400mm de distância focal (ou seja, acima de 8x de aumento). Uma das lentes mais usadas para este caso é a 600mm, mas que dependendo da luminosidade que ela possuir (se for uma lente muito clara, por exemplo) vai custar uma pequena fortuna e quem estiver interesse em adquirir uma destas, terá que desembolsar entre 15.000,00 e 25.000,00 reais, dependendo da marca e de alguns recursos que estas fantásticas lentes possuírem, como o Foco Automático super rápido e a Estabilização de imagem.
As lentes conversoras de tele e grande-angular podem ajudar a atenuar a limitação óptica das câmeras digitais compactas. Sua função é aumentar ou diminuir a distância focal da lente objetiva. O conversor de tele facilita fotos de pássaros e outros animais. E o conversor de grande-angular é indicado a fotos de paisagens — especialmente quando se quer inserir um objeto em primeiro plano na imagem, dando ao cenário uma sensação de profundidade e perspectiva.
A fotografia de natureza agora, refiro-me exclusivamente aos animais é um retrato. Da mesma maneira que se busca o detalhe que revele a personalidade de uma pessoa, deve-se estar atento a qualquer momento ou situação que exprima o estado de espírito do animal. Ao se concentrar no essencial, geralmente, trabalha-se em closes e cortes na edição, o que, automaticamente, leva a leitura da imagem a outro nível, com mais subjetividade e delicadeza.  
Deixando o assunto sobre as lentes, outro acessório indispensável que qualquer fotógrafo de natureza deve possuir é um bom flash. Não aquele pequeno flash que já vem incorporado na maioria das câmeras e que ajudam apenas para assuntos bem próximos, mas estou me referindo aos potentes flashes externos que são montados nas sapatas sobre as câmeras e que permitem fotografar uma coruja à noite a uma boa distância, por exemplo. Estes flashes não são úteis apenas para as fotografias noturnas, mas também em muitos casos durante o dia, como para fotos no interior das matas sombrias, em situações em que se quer iluminar o assunto que se encontra em contra a luz para evitar que este apareça apenas como silhueta ou ainda pode ser usado para iluminar as áreas de sombra em uma foto.