quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O charme e a febre das imagens com foco seletivo

Antes restrito a câmeras de grande formato, o efeito ganha popularidade com o uso de recursos digitais fotografia com foco seletivo é um recurso técnico antigo que vem sendo usado pelo renomado Claudio Edinger há pouco mais de dez anos de forma estética e discursiva. Mas graças a evolução da tecnologia digital, o efeito virou moda e se tornou um dos favoritos de muitos fotógrafos da atualidade, profissionais e experts.

Durante muito tempo restrito as câmeras analógicas de grande formato, o foco seletivo pode ser obtido atualmente também com o uso de objectivas especiais para DSLR, conhecidas como tilt-shift, ou mesmo nativamente em algumas câmeras, que fotografam de forma tradicional e simulam a profundidade de campo peculiar digitalmente.

O foco determina o que estará nítido na imagem, consequentemente definindo pontos de leitura mais ou menos fácil. O foco seletivo consiste em deixar parte das imagens mais nítidas do que outras, selecionando o ponto de interesse, já que inevitavelmente o observador procura áreas nítidas para fixar o olhar. Esse é um dos expedientes mais usados pelos fotógrafos para criar destaque nas imagens. O foco é uma das poucas opções na composição que deve ser feita através da câmera e não por um trabalho mental ou visual da cena. O foco seletivo está ligado à baixa profundidade de campo, que pode ser obtida com aberturas maiores do diafragma, maior distância focal da lente (zoom) e menor distância entre a câmera e o objeto.
Além das objetivas, softwares dedicados conseguem aplicar o foco seletivo em qualquer foto, e até aplicativos para smartphones e serviços on-line já reproduzem o recurso de forma satisfatória. Foco é distância, pouca profundidade de campo significa que objetos próximos terão diferença de foco entre si. Se a profundidade de campo for maior essa diferença fica menor.
“O foco seletivo nasceu no começo do século 20 com os pictorialistas e depois foi abandonado. Hoje, procuro desenvolver cada vez mais minha pesquisa com este efeito, o qual cria um paradoxo e uma síntese dentro da imagem, que por si só já é uma síntese do mundo”, diz Claudio Edinger.

Em anos recentes, o fotógrafo carioca Claudio Edinger, 58 anos, 13 livros publicados, tem se dedicado a uma sistemática documentação de cidades e paisagens com a câmera de grande formato, que produz fotos na dimensão 4×5 polegadas (10×12,5 cm). Além de Paris, Los Angeles, Rio de Janeiro e São Paulo, o fotógrafo já se aventurou pela Amazônia, pelo Nordeste e pelo Sul do Brasil.

A câmera de grande formato usa filmes em chapas. As mais usadas são as de 4×5 e 8×10 polegadas. Extremamente simples na construção, a câmera tem a parte dianteira com a lente e a traseira com o vidro para focagem e local para o suporte da chapa. As duas partes são ligadas por um fole e toda essa estrutura é móvel e ajustável verticalmente, horizontalmente e perpendicularmente. Com isso, o foco pode ser colocado em qualquer local do espaço que se quer fotografar.

Esse efeito de “foco seletivo” é bastante explorado por Edinger em seus ensaios. “Tenho tentado aprofundar minha pesquisa com o foco seletivo, que além de ser a forma como enxergamos o mundo, cria um paradoxo e uma síntese dentro da imagem. E o que o mundo tem de mais interessante são os paradoxos e as sínteses”, diz o fotógrafo.
No Brasil, está cada vez mais difícil a produção com câmeras de grande formato. A oferta de filmes é pequena e os poucos laboratórios que antes os revelavam estão desaparecendo. Efetivamente, a tecnologia está fazendo da fotografia analógica um trabalho cada vez mais caseiro. Muitos fotógrafos estão retomando os seus laboratórios e procurando a autossuficiência.
Por outro lado, cada vez mais, Edinger tem fotografado com o seu iPhone e o resultado tem sempre as suas marcas de apuro estético e empenho documental. Prova maior de que a tecnologia é apenas uma ferramenta para o talento.

“Como cada lente tem uma distância focal diferente, o foco não é na mesma região e as imagens não têm exatamente o mesmo corte. Mas, visualmente todas conseguem reproduzir bem os efeitos de foco seletivo e chamam muito a atenção de quem os observa. É um efeito fantástico, por isso faz tanto sucesso”, diz Edison Figueira Junior, que fotografa por hobby.