quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Fotografar embaixo dágua

Na aula sobre fotografia subaquática, o especialista Ary Amarante mostra dicas importantes para escolher, comprar e usar o acessório essencial para quem quer evoluir no segmento: o flash. Como foi visto na primeira aula, o ambiente aquoso traz diversas limitações físicas à atuação do fotógrafo. Uma das principais está associada à rápida perda de intensidade da luz do sol ao penetrar na água. Além disso, os raios solares são filtrados, causando a perda de capacidade de reflexão de tonalidades entre o amarelo e o vermelho no espectro visível. Por essa razão, o flash é fundamental em fotossub.

O papel do flash é assegurar que o fotógrafo consiga reproduzir as cores reais dos objetos em profundidades abaixo de 5 metros. Além disso, o acessório possibilita fotografar usando pequenas aberturas de diafragma, para obter grande profundidade de campo em fotos macros e ajuda a evitar o uso de sensibilidades ISO muito altas – neste caso, para compensar a perda de intensidade da luz solar, o que acaba gerando ruído nas imagens.
“Quem está começando em fotossub sente um grande salto na qualidade das fotos quando começa a dominar o uso do flash. Por essa razão, é indicado investir no acessório logo de cara. Ele é tão importante debaixo dágua que não é um item opcional, mas obrigatório”, explica Ary.

Para fazer a iluminação na água, há também a opção de uso de luz contínua. Porém, o acessório só é indicado para vídeo. Justamente por conta da grande perda de intensidade da luz ao se deslocar no meio aquoso, os equipamentos de luz contínua demandam grande potência e, por consequência, enormes baterias de alimentação.
O flash é a forma mais indicada de iluminação para as fotos, pois consegue atingir disparos com maior potência do que a luz contínua e acaba consumindo menos energia, uma vez que não fica ligado o tempo todo.
Na hora de investir em um flash, a principal variável a levar em consideração é a potência. Para se ter uma ideia, um flash que atinge até 5 metros de distância no ambiente “seco” consegue atingir apenas cerca de 1,5 metro debaixo dágua, menos da metade da distância. A perda de intensidade da luz deve ser considerada na ida e na volta. Assim, se o fotógrafo está a 1,5 metro do assunto, a luz irá percorrer 3 metros ao todo.
Ary recomenda flashes com número-guia acima de 20 (ISO 100). É o número-guia que indica a máxima potência de disparo do flash. Alguns modelos de flashes para fotossub usam bateria recarregável para alimentação de energia em vez de pilhas. Os modelos alimentados por bateria têm uma vantagem comparativa no que diz respeito ao tempo de recarga, que é menor. Assim, garantem melhor desempenho ao fotógrafo nos disparos em cenas de ação.
As marcas mais conceituadas do mercado de flashes também são experts na produção de caixas- estanques: as japonesas Sea&Sea e Inon e a norte-americana Ikelite. Há duas marcas chinesas cujos flashes têm chegado ao Brasil com frequência: Intova e Sealife. São opções mais baratas e menos duráveis, mas que podem servir para quem está começando e não tem muito dinheiro para investir. Segundo Ary, os bons flashes têm preço a partir de US$ 400 no mercado dos EUA.

Os flashes voltados para a fotossub já vêm com o corpo estanque. Porém, existem modelos de caixa-estanque para os flashes mais avançados das linhas profissionais de Canon e Nikon. Para Ary, no entanto, essa não é a melhor opção, já que o preço do acessório é quase o mesmo de um flash estanque novo, e o usuário ainda corre o risco de perder seu flash em caso de uma possível entrada de água.
Ary Amarante alerta que não é necessário comprar flash da mesma marca da caixa-estanque. A única exceção é com relação ao equipamento da Ikelite, pois o fabricante oferece modelos de caixa que se comunicam com o flash, permitindo controle automático da potência. Dessa forma, o flash externo acaba funcionando como uma extensão da câmera.
Nas fotos de making of que ilustram esta e as outras duas aulas de fotossub, o flash é usado pelos mergulhadores com auxílio de um braço. Isso ocorre porque a luz frontal é muito problemática debaixo dágua, realçando as partículas em suspensão e prejudicando, com isso, a nitidez da imagem final. Assim, na fotossub, o flash nunca é usado sobre a câmera.
Os braços são vendidos separadamente e estão disponíveis em diversas opções de marca, não dependendo de haver braços da mesma marca da caixa-estanque ou do flash. O braço usado varia conforme a objetiva escolhida. Como é comum o uso de objetiva grande angular na fotossub, é necessário que os braços estejam posicionados de maneira aberta, para que o flash não apareça no enquadramento.

O flash externo é acionado com o uso de cabo óptico, posicionado dentro da caixa-estanque, à frente do flash embutido da câmera. Uma vez que o flash embutido dispara, o cabo transmite o impulso para o flash externo, fazendo-o disparar ao mesmo tempo. O sistema funciona tanto com compactas quanto com DSLRs. No caso de câmeras DSLRs sem flash embutido, como a Canon EOS 5D Mark III, é preciso usar o cabo de sincronismo.
Muitos modelos de flash oferecem o recurso de TTL, para regulagem automática da potência a partir de uma medição de luz da cena. Nesta situação, o flash externo ajusta a potência mais adequada para disparo, segundo a intensidade do flash embutido da câmera.
Ary Amarante conta que em muitos casos de cena com grandes porções de azul, como nas fotos abertas feitas com grande angular, o fotômetro da câmera pode fazer uma leitura errada da cena e não disparar o flash embutido. Nesses casos, não há outra alternativa a não ser usar o flash externo no modo manual.
Para quem mergulha com apenas um flash, é possível usar a mão esquerda para direcionar o acessório, contando com uma regulagem mais fácil e intuitiva. Entretanto, isso causa cansaço, pois impossibilita usar a mão esquerda para ajudar no deslocamento com o equipamento debaixo dágua e para regular a distância focal em objetivas com zoom.

O segundo passo no aperfeiçoamento de um fotógrafo subaquático é o domínio do uso de dois flashes simultâneos. Este procedimento assegura maior controle de luz sobre a cena. Inicialmente, o uso de dois flashes é indicado por garantir maior potência de luz e uma consequente versatilidade nos disparos. Como na maioria dos casos, a objetiva usada é uma grande angular, o segundo flash também ajuda a aumentar a cobertura. O flash chega a englobar um ângulo de 900, enquanto algumas objetivas olho de peixe têm ângulo de cobertura de até 1200.
Segundo Ary, a melhor maneira de combinar o uso de dois flashes é por meio de ajustes manuais. Quando os flashes estão posicionados a uma mesma distância, é recomendado deixar a carga de um deles pela metade do outro para conseguir uma maior impressão de profundidade nas imagens. Outra variação possível é na regulagem dos braços, deixando um flash mais próximo do assunto do que o outro.
O uso combinado de flashes, em sua forma mais sofisticada, também permite destacar dois planos em um mesmo enquadramento, como no caso de uma cena com um peixe em primeiro plano e um mergulhador ao fundo. “Como os flashes são usados no modo manual, não há muito como dar uma receita de como fazer. O domínio da técnica só vem depois de muita tentativa e erro, quando você já tem conhecimento profundo do equipamento”, esclarece Ary.
O peso do equipamento não é uma questão relevante para a fotossub, pois a água exerce uma força de empuxo, que acaba anulando o peso. Porém, o mergulhador precisa deslocar a câmera, num movimento de arrasto que enfrenta resistência da água, sobretudo quando a correnteza empurra no sentido contrário. Por vezes, pode ser bastante cansativo mergulhar com câmera e dois flashes acoplados.
A forma como os animais marinhos reagem à luz do flash varia bastante, mas não costuma ser de espanto. “Esse é um fator que varia de indivíduo para indivíduo, e que depende muito do ambiente em que você está mergulhando. No geral, os seres marinhos permitem aproximação muito maior do que os do ambiente seco e não costumam se assustar muito com flash. Isso é bom porque, em fotossub, quanto mais você se aproxima melhor”, ensina Ary Amarante.
Não custa lembrar que a autonomia é uma das questões mais importantes a se levar em consideração na fotossub. Portanto, antes de mergulhar, certifique- se de que os flashes e a câmera estão com o máximo de carga para garantir o máximo de disparos. Mesmo com flashes estanques, é impossível trocar pilhas ou bateria estando submerso.
Para flashes que usam pilha, o mais indicado é comprar modelos de NiMH com amperagem alta, como 2500 mAh ou 2700 mAh. Quanto maior a amperagem, maiores a quantidade de energia armazenada e a autonomia oferecida. Dê preferência a marcas com tradição no mercado e fique de olho na procedência, pois esse é um tipo de acessório bastante suscetível a falsificações.

Em resumo: quem quer ser um bom fotógrafo subaquático precisa ter um flash de qualidade e saber como usá-lo. Na última aula da série, na próxima edição, confira dicas para conseguir boas fotos macros e mergulhar e fotografar à noite.