quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A inquietação ousada de Claudia Jaguaribe

Claudia Jaguaribe é uma artista cuja obra é permeada pela inquietude, um desejo de experimentação intrínseco, que encontrou na fotografia o meio essencial de representação.
Ela transita pelo formato mais clássico, como as imagens em preto e branco, até suas diferentes assemblages e incursões em multimídia, como instalações e vídeos, que a descolam significadamente do rótulo de fotógrafa.
Nascida em 1955, no Rio de Janeiro, filha de um dos intelectuais brasileiros mais importantes, o sociólogo e escritor carioca Hélio Jaguaribe, Claudia não abandonou a estirpe erudita e foi estudar História da Arte na Boston University, em Massachusetts, nos EUA, seguindo uma carreira na Universidade Estadual do Rio de Janeiro na Fundação Rio Arte, importantes centros na difusão cultural da arte brasileira.
“Meu pai é uma mistura de intelectual com empresário. Por isso, convivi com pessoas muito diferentes desde criança”, conta. Na adolescência, outras marcas: no início da ditadura militar, por divergência política, mudaram-se para os Estados Unidos, em 1964, Jaguaribe foi fundador do Instituto Superior de Estudos Brasileiros e um dos mais duros críticos do golpe. “Não tínhamos data para voltar ao Brasil”, lembra Claudia, que com mais quatro irmãs e um irmão, viveram quatro anos marcantes no exterior.

Casada na década de 1970 com o economista André Lara Resende, um dos pais do plano Cruzado, voltaria aos Estados Unidos nesse período para se graduar em História da Arte, enquanto o marido também conquistava se PHD no Massachusetts Institute of Technology (MIT). A estadia em Boston seria determinante na carreira como artista. Ela ainda não tinha ideia se seria escultora, pintora ou curadora. Mas o núcleo forte nas artes visuais do Wellesley College pesou. A escola foi fundada em 1870 e a graduação em Media Arts é uma das mais procuradas.
Grávida de Marianna, a primeira de Três filhos, A Wellesley ficou longe e ela mudou para a Boston University, mais perto de casa. Foi lá que teve o primeiro choque de fotografia: “Vi os prints enormes do Joel Meyerowitz”, diz, referindo-se ao fotógrafo nova-iorquino, reconhecido pela qualidade das imagens em cor de grande formato. É dessa época um estágio que fez na universidade, no departamento de impressão, que iria nortear a qualidade de suas imagens até hoje.
Quem vê as impressões de Claudia Jaguaribe, em qualquer mídia, reconhece um raro padrão de excelência. Essa busca é acompanhada de perto por ela e dois assistentes diretos, em seu estúdio de finalização. No meio de uma ampla sala, estão monitores de 30 polegadas, e ela circula sem parar, orientando os detalhes dos trabalhos. Entre eles, os que são expostos na Galeria Fauna, na capital paulista, em que paricipa da coletiva Fábulas e Encontros, montada pela curadora Georgia Quintas – que reúne trabalhos de Ana Beatriz Elorza, Bruno Vilela, Flavia Sammarone, Ilana Lichtensteins, Luana Navarro
Da moda à arte
Com a arte presente desde o início, e rumando para a docência e curadoria, o percurso seria um pouco mais extenso para Claudia Jaguaribe, e, nos anos 1980, ela descobriu que estava mais próxima de ser fotógrafa ou uma artista que usasse a fotografia como suporte. Os primeiros passos surgem de maneira comercial, fazendo moda e publicidade para campanhas de marcas como a C&A, e se estendem até o final da década entre editoriais para revistas como Vogue Brasil e imagens de arquitetura.

A passagem pelos Estados Unidos tem uma ligação com o próprio desenvolvimento da arte fotográfica internacional: A fotografia surgia como arte futura naquela época. Diane Arbus e Richard Avedon ganhavam destaque nas galerias, lembra. Isso a deixou deslocada quando retornou ao }Brasil: Não havia um ambiente natural para eu me encaixar fora da publicidade”. O acerto foi buscar uma conciliação entre  trabalho comercial e projetos mais autorais, o que mudou definitivamente a inserção da fotografia em sua carreira.
O primeiro livro, Cidades (Ci. das Letras, 1993), é significativo, pois encontra a fotógrafa no princípio do domínio do espaço urbano, recorrente em muitas das obras atuais como Rio, Paisagem Construída, de 2011. Embora exista uma certa distância imagética, conceitual e construtiva, aquela primeira obra é um alicerce para as imagens produzidas agora. Anos antes, em 1991, ela fez a exposição, no MASP, A Paulista no Papel: Ângulos e Visões da Avenida Paulista, que trouxe a proximidade com a arquitetura urbana. Mas o tema teve seu distanciamento intercalado em diferentes períodos com  a questão não urbana, um fôlego maior na produção da artista.
Claudia explica seu processo construtivo: “Meus temas surgem de várias maneiras, seja por estar vivendo uma determinada situação e preciso refletir sobre isso, seja por ainda não conhecer algo e querer experimentar ou o assunto se impor no dia a dia”, diz.

Um dos exemplos dessa mecânica é o livro Aeroporto (FQM Editores Associados, 2002). A artista conta que viajava sem parar e passava horas nos aeroportos. “Passei a olhar aquele espaço como uma espécie de limbo, uma forma de transição entre o sair e chegar…”.
Questionamento
O crítico de arte Agnaldo Farias nota acertadamente que, nos anúncios publicitários de viagens ou de aviões, “são poucas ou quase nulas as imagens que resultam de um olhar crítico sobre eles”. Para ele, Claudia Jaguaribe altera esse quadro ao misturar aspectos simbólicos com a questão documental, ao mesmo tempo em que questiona a natureza da imagem fotográfica na construção da sintaxe.
No caso de Rio, Paisagem Construída, ela recebeu uma indicação para o Pictet Prix (do Pictet&Cie, banco suíço) um dos mais importantes das artes visuais, com um trabalho já existente, sobre o tema do crescimento urbano. Mas não satisfeita, desenvolveu toda uma série nova manipulando imagens, juntando espaços contíguos a classes sociais díspares em um instigante trabalho, visual e conceitualmente. Ela conta: “Toda vez que eu chegava ao Rio de avião me impressionava com aquela paisagem sendo tomada por todos os lados, invadida por construções de todos os tipos”.
Muito da arte contemporânea que faz sucesso tem como suporte a fotografia. Se as mídias mais clássicas entraram em crise, não avançaram ao poder instalado do modernismo, é nessa mídia que os novos produtores se apóiam para se manifestar. No entanto como um meio oriundo de uma ”prótese”, para lembrar Vilém Flusser (1920 – 1991), torna-se fundamental o respeito com a sua utilização. Nesse ponto, poucos artistas como Claudia Jaguaribe se aventuram a trilhar esse caminho com confiança, distantes da emulação interminável que assola a arte de modo geral.
O curador italiano Marco Delogu observa, no trabalho de Claudia Jaguaribe, que “todo fotógrafo torna-se um autor quando depura sua visão e começa a imbuir imagens de pedaços e visões de sua história, uma história muitas vezes pautada por antecessores”.
Em resumo: uma verdadeira incubação artística produzida pela autora. É nessa longa jornada, séria e dedicada, que se encontram determinadas ligações em sua trajetória, que a fortalecem para o planejamento e execução. Isso a distancia diametralmente dos trabalhos mais rasos que pululam na arte dia contemporânea.
Na oposição à urbanidade, a inquietude da artista a levou a outra importante obra, cuja ampliação da dinâmica se tornaria um paradigma na interpretação de seu percurso mais histórico. O livro Quando eu Vi (Punctum Editions, 2009) traz em polípticos, imagens tratadas de maneira múltipla, cujo tema essencial é a paisagem, uma das mais clássicas recorrências da fotografia e da pintura tradicional. Para o curador Delogu (editor do livro), Claudia Jaguaribe “se distancia da espetacularização da natureza em si mesma”. O que leva de volta aos trabalhos anteriores, produzidos com originalidade.
Experimentação
“Cada projeto traz um desafio: a coerência do tema com a forma. Um puxa o outro e não me preocupo em seguir linhas predeterminadas”, conta a artista, que só encontra satisfação depois de experimentar diferentes formas de produção. Ao contrário de muitos jovens artistas, que se acham infalíveis, Claudia Jaguaribe, com longa carreira de sucesso, ainda acha que “o erro é fundamental porque traz surpresas” e, nessa linha, as novas tecnologias fazem parte desse percurso essencialmente experimental.

A artista carioca se define como workholic. Emenda um projeto em outro, é uma das curadoras do Festival Internacional de Paraty em Foco, viaja pelo mundo buscando aprimorar a cultura e farejando tendências, constantemente vasculhando gavetas, procurando novos trabalhos. O que se poderia chamar de experiência contra aquela forma de arte baseada no imediatismo inconsciente exposto nas galerias de arte. Ela conclui: “ Imagens temos aos milhões. O que precisamos agora é de uma síntese, fotografias que mostrem caminhos.